Em criança aprendeste quando é que estás certa. Ninguém o disse em voz alta. Mesmo assim, soubeste.
As crianças leem muito antes de perceberem palavras. Leem rostos. Leem o ar da sala. Uma criança percebe a tua frase tarde. O teu estado percebe-o logo. Nota se estás no teu corpo ou só ao lado dele, se ficas mais suave ou se te viras para o outro lado. E daí tira uma conta: é assim que sou bem-vinda.
Essa conta é uma condição. Raramente é dita e quase sempre é aprendida. E é precisa. As crianças não trabalham com médias. Fixam a única situação em que o ar mudou e organizam-se a partir daí.
Como soa a condição
Para algumas chamava-se: porta-te bem. Para muitas chamava-se: faz com que eu esteja bem.
Algumas condições até soavam amigáveis. Sê grata. Não nos tornes isto ainda mais difícil.
Uma criança que sente que a mãe está no limite começa a poupá-la. Faz-se pequena para que ela possa ser grande. Ou faz-se grande para que ela não tenha de o ser. Visto de fora, ambas parecem uma criança fácil. Por dentro, é trabalho.
Depois essa criança cresce, e a condição cresce com ela. Sai do quarto de criança e entra na profissão. Só muda de nome. Agora chama-se ambição. Ou fiabilidade.
A cena de quinta-feira à noite
Imagina uma quinta-feira à noite. São 22h40, uma mulher ainda está sentada à mesa de jantar a responder a e-mails que podiam esperar até segunda. Está cansada. Mesmo assim, não para.
Pergunta-lhe porquê, e ela fala-te do trabalho. Das expectativas, do setor, do ritmo.
Olha doze anos para trás, para o primeiro emprego. Já aí fazia assim. Olha mais para trás, para a escola. Era a que entregava tudo, sempre. E ainda mais para trás está uma menina sentada à mesa da cozinha que repara: quando eu trago alguma coisa, a casa fica calma.
Não foi a empresa que lhe montou esta noite. A empresa só a paga. Foi montada há trinta anos, numa sala em que este comportamento ajudou.
É aqui que fico sempre presa quando penso em condicionamento. Um dia foi uma solução inteligente. Por isso aguenta tão bem.
A avaliação é uma invenção do ser humano
Toda a condição é uma avaliação. Assim és boa, assim és menos. Não foi inventada por ninguém que te quisesse mal. Foi passada por pessoas que a receberam elas próprias, por pais que trabalharam com o que tinham.
A avaliação é uma invenção do ser humano. Sobre ti não diz nada. Sobre o momento em que nasceu diz tudo.
E o material de que é feita, podes olhá-lo. Essa é a parte que quase ninguém faz. Carregamos frases destas connosco durante décadas e tomamo-las por carácter. Um julgamento sobre ti com quarenta anos aguenta mal um exame. Só que ainda nunca teve um.
O teu esgotamento continua a caminhar
Agora fica desconfortável. Digo-o na mesma, porque é aqui que está o essencial.
O que em ti corre em modo contínuo, os teus filhos passam adiante. As tuas frases são o menor. O teu sentimento de base é que chega. Uma criança regula-se em ti, mesmo que tenhas decidido fazer diferente dos teus pais. Os propósitos trabalham com palavras. O condicionamento trabalha com estados.
Se esta frase se está agora a virar contra ti, para exatamente aí. A culpa não ajuda ninguém aqui. A responsabilidade sim.
A culpa olha para trás e procura alguém. A responsabilidade olha para o que passas adiante, antes de o passares. Esse é o trabalho. Quase ninguém lhe chama educação. É o que mais muda.
O que podes fazer com isto esta semana
Pega numa frase que dizes sobre ti como se fosse o teu carácter. Eu sou mesmo assim, daquelas que. Conheces a tua.
Depois pergunta: que idade tem esta frase? A quem serviu quando nasceu?
Quase sempre vem uma resposta, e quase sempre é mais velha do que pensavas. Não tens de a resolver. Basta saberes que a tua frase tem uma data. Uma frase com data perde o poder sobre o teu hoje.
Tudo tem uma causa. Também a condição com que entraste em campo. Uma causa podes olhá-la sem culpar ninguém, nem os teus pais nem a ti.
Quando encontrares a tua frase, escreve-me. Leio cada mensagem eu própria.